segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

"Como maçãs de ouro"

                                                                                 




“Como maçãs de ouro”
“A PALAVRA proferida a seu tempo é como maçãs de ouro em cestos de prata.” Assim disse o sábio Rei Salomão, e poucos discutiriam com ele a exatidão dessa declaração. A palavra bem-escolhida, falada na hora certa, é uma obra de arte da mesma forma que seria um lindo ornamento de prata ou de ouro. Poucos depreendem, contudo, quanto está envolvido na boa expressão e quão necessário é escolher palavras que causem o máximo de impacto no público.
As palavras são, naturalmente, usadas para transmitir informações e idéias de uma pessoa para outra, e, assim, qualquer pessoa que tenha uma mensagem a transmitir deve interessar-se em aprimorar suas faculdades de expressão. Se as pessoas a ouvirão ou não dependerá grandemente de como expressa seus pensamentos.
Bem, todos nós compreendemos que grandes obras literárias são lidas e relidas por seu público exatamente da mesma forma que grandes obras musicais são ouvidas vez após vez, e que as informações ficam assim inculcadas na mente do ouvinte pela repetição. A maioria das pessoas instruídas ouviram falar de Shakespeare, por exemplo, mesmo se o inglês não é sua língua materna. Além disso, a maioria tende a reter aquilo que lêem com prazer. Assim, se quisermos frisar um ponto ou convencer alguém sobre algo, devemos tentar fazer com que nossa linguagem seja tão eficaz quanto a daqueles autores antigos.
Os grandes críticos literários, tais como o romano Horácio, o grego Aristóteles ou o inglês Samuel Johnson, estudaram as obras de outros para verificar o que as tornava leitura memorável, e seus achados podem ser de grande ajuda para nós.
De início, todos concordam que escrever bem não é fácil. Samuel Johnson disse que aquilo que foi escrito sem esforço em geral era lido sem prazer. Ademais, todos concordaram que precisamos fazer mais do que apenas contar uma história ou transmitir certos fatos, a menos que nosso relatório deva ser inteiramente funcional. Precisamos também atingir o coração.
Para fazer isso, nossa própria atitude é importantíssima. Estamos deveras interessados nesse assunto? Certo escritor disse que, se alguém desejasse fazê-lo sentir dor, então esse alguém deveria ele mesmo primeiro sentir dor, e, desta forma, sua linguagem soaria genuinamente como a verdade. Por envolvermos nosso leitor, entretendo-o, informando-o ou até mesmo chocando-o, cativaremos seu interesse e, assim, estimularemos suas emoções.
Há várias coisas básicas a se ter presente para isto: o propósito de se escrever, o público a quem nos dirigimos, e a escolha da forma de expressão, chamada estilo pessoal.
Propósito de Se Escrever
É patente que, se nossa intenção for entreter ou divertir, usaremos um estilo radicalmente diferente do usado por alguém que tente explicar um fato científico complicado a um público não-científico. Similarmente, quem tenta convencer seus ouvintes sobre uma verdade religiosa vital não deseja que rolem pelos corredores de tanto rir.
No entanto, seria errado imaginar que o que é escrito para instruir precise, necessariamente, ser maçante, ou que, por se contar uma história fictícia, não se possa transmitir grande verdade. Muitas obras de ficção exerceram grande impacto social por colocarem um personagem típico e simpático em certa situação e então trazerem à atenção do povo as injustiças inerentes a ela.
As obras dos grandes escritores franceses, Flaubert, Balzac e Guy de Mau-passant não só divertem, mas também podem ser consideradas como comentários sociais. As pessoas sabiam que a escravidão era errada antes de Harriet Beecher Stowe escrever A Cabana do Pai Tomás, mas, não foi senão depois de lerem o livro, tendo sofrido junto com o Pai Tomás e começado a entender as tristes condições dos escravos negros nos Estados Unidos, que se moveram a agir.
Por outro lado, o que é escrito para informar não precisa ser enfadonho. Certo escritor romano, chamado Virgílio, escreveu “As Geórgicas”, e, se alguém teve a feliz oportunidade de ter aprendido latim, hoje ainda pode apreciar sua linda seçãozinha, toda em versos, sobre a apicultura. Compreendia que uma ilustração tirada de um assunto inteiramente diverso poderia avivar um discurso cujo propósito era simplesmente didático e que o humor não era, de forma alguma, fora de propósito, digamos, num artigo científico.
Horácio, crítico muito prático, do primeiro século antes de Cristo, disse que, ou o escritor “tenta dar bom conselho ou tenta ser divertido — ou tenta ambos. . . . A mistura de prazer e proveito atrai todo leitor.”
Ilustrando este ponto, um dos mais queridos oradores sobre astronomia para a BBC da Inglaterra, há alguns anos, quase sempre começava suas preleções sobre o céu noturno por falar sobre sua horta e o que os coelhos faziam com sua alface. E, no decorrer da preleção, contava pequenas piadas e estórias, relacionadas um tanto, mas de forma distante, com seu assunto, a fim de reter o interesse dos que não haviam sido treinados a pensar de forma científica.
Compreendia que, embora seu intuito primário fosse transmitir fatos, o secundário tinha de ser fazer isso de tal modo que as pessoas desejassem conhecê-los; e, visto que a maioria não estava sintonizada, por assim dizer, no comprimento de onda científico, ele ajustava seu estilo de acordo com isso.
O Público a Quem Nos Dirigimos
Sim, faz bastante diferença a quem dirigimos nossas palavras. Uma carta a uma tia idosa sobre o assunto de sua saúde ruim vai ser bem diferente em tom, estilo e composição de uma carta a um prospectivo patrão, declarando suas habilitações para o emprego. No último caso, os fatos pesam; no primeiro, o calor humano.
Estamos falando mormente a homens ou esperamos que as mulheres e crianças sejam atraídas pelo que temos a dizer? Ou falamos a uma assistência internacional? É claro que não podemos satisfazer a todos de imediato, e alguns propendem naturalmente para um ou outro assunto. Todavia, é possível dar até mesmo a assuntos técnicos um colorido mais universal, e, assim, atingir mais ampla assistência.
Se estivermos falando a uma reunião internacional, então, a todo custo, usemos ilustrações de diferentes países. Tenha presente que, em todos os continentes, não são os mesmos os pontos de vista sobre assuntos básicos. Suponhamos, para exemplificar, que tentemos convencer os jovens dos perigos da imoralidade. Bem, lembraríamos naturalmente às jovens da vergonha relacionada às mães solteiras. No entanto, será que consideramos também o continente africano, onde se espera que a maioria das jovens tenham tido um filho antes de se casarem, como prova de sua fertilidade, e onde se pensa nisso, não como vergonhoso, mas, em alguns casos, como uma honra? Com freqüência, o homem se recusa a esposar uma jovem até que lhe dê um filho. Muitos milhões de pessoas pensam dessa forma, assim, precisamos ter presente tais coisas ao escrevermos.
Outro exemplo poderia ser o do artigo técnico. A menos que escrito só para um público que já possua conhecimentos científicos e se tencione usá-lo como referência, raramente haveria utilidade em enchê-lo inteiramente com fatos e estatísticas, em especial nos primeiros parágrafos. As mulheres quase sempre evitam, como que a peste, os artigos que contenham uma porção de fatos numéricos, como revela uma espiada numa revista que vise principalmente as mulheres. Parecem gostar de números só ao tricotar! As pessoas em países africanos e asiáticos, onde se dá mais ênfase às relações humanas e menos à tecnologia, acham difíceis de absorver as informações puramente científicas. E para ser honesto, há muitos poucos de nós que sintam o prazer do velho professor de matemática inclinado sobre uma página composta inteiramente de equações que ergueu os olhos, reprimindo o riso, e disse: “Digo-lhe que ele escreve muito bem, não escreve?”
Assim, suponhamos que escrevêssemos uma carta sobre a Represa Kossou, na África. Poderíamos começar, talvez, por suscitar a simpatia dos nossos leitores para as pessoas que moram nos povoados próximos e que, até agora, não dispunham de água corrente ou de eletricidade, e para as quais a represa será uma bênção. Ou, pelo contrário, talvez pudéssemos deixá-lo preocupado com os efeitos ruins que tais represas terão na população comum, devido ao aumento das doenças transmitidas pela água. Daí, depois disso, poderíamos passar a tais fatos um tanto indigestos de quão comprida e quão profunda é, e quantas toneladas de peixe se espera que produza.
Daí, por fim, tendo captado o interesse de nosso leitor, desejaremos retê-lo, e isso dependerá, em grande parte, de nossa maneira de apresentação.
Maneira de Apresentação
Primeiro, podemos variar a estrutura em que expomos nossas informações. Podemos escrever um documentário direto, contando que os fatos falem por si. Ou poderíamos apresentar nossas idéias em forma de diálogo, como fizeram Platão ou Aristófanes, cada um dos personagens apresentando um diferente ponto de vista. Ou poderíamos escrever uma peça ou história e, pela forma em que os vários personagens terminam, mostrar o que achamos de certas situações. Às vezes, numa peça, um coro no palco pode comentar a ação, ao ir-se desenvolvendo, para sublinhar o ponto, como fizeram no drama grego. Às vezes, é ainda mais eficaz deixar que a ação fale por si. Algumas obras excelentes foram feitas quase que inteiramente em verso, como foi o livro de Jó.
Em segundo lugar, as próprias palavras escolhidas influirão no nosso público. Todos os críticos concordam que precisamos ser simples e breves, mas variados. Aristóteles dava alto valor à pureza e à clareza, e Horácio aconselhava incisivamente o autor em formação a lançar fora os vasos de tinta e as palavras quilométricas. Com isso queria dizer que não devemos ser floreados demais nem usar palavras compridas e eruditas que ninguém compreende.
Embora desejássemos ornamentar aquilo que dizemos, não há absolutamente nada que sobrepuje o estilo simples e direto. Demasiadas palavras, ditas muito apuradamente, talvez até confundam nosso público e lhe dêem desejo de abandonar a leitura. Veja o exemplo da biografia de Cristo, feita por João. É um modelo de simplicidade, o estilo e o vocabulário de João o assinalando como homem comum e sem letras, todavia, seu Evangelho é tido como o mais comovente dos quatro.
Uma das primeiras ajudas para a simplicidade é a brevidade, mas ser breve é muito mais difícil do que se poderia imaginar. Blaise Pascal, o filósofo francês, escreveu a um amigo: “Tornei esta carta mais comprida do que o comum por falta de tempo para torná-la mais curta.” E o pobre velho Horácio disse, um tanto triste, que era quando tentava ser breve que se tornava ininteligível!
Ele possuía, contudo, muitas idéias brilhantes sobre como nós poderíamos fazer isso. De início, devíamos aparar as palavras desnecessárias e frases repetitivas — livrar-nos do supérfluo, por assim dizer. Embora a informação deva ser completa, deve também ser compacta. A clareza vem de ir ao âmago da idéia e fazê-la destacar-se da mesma forma que uma pessoa num palco detém a atenção mais facilmente do que um grupo.
Esta simplicidade e brevidade que os grandes escritores advogam não significa, contudo, que não podemos variar. Não há falta de palavras interessantes, nem de modos interessantes de nos expressarmos. Temos, na Bíblia, por exemplo, muitos exemplos fascinantes de diferentes estilos, e faríamos bem em imitar alguns deles.
Há o estilo poético dos Salmos; o estilo dramático de Habacuque; as imagens vívidas de Naum, que fala da chama de espada e do raio da lança; o estilo expressivo e epigramático dos Provérbios; a linguagem direta e concreta de Jonas (certamente ele não tinha nenhuma necessidade de florear a história!); ou a linguagem conversante, cotidiana das parábolas de Cristo. Ao expor a falsidade, poderíamos usar o estilo irônico, como fez o apóstolo Paulo em sua carta aos Coríntios, mostrando com sutileza sua ingratidão ao instituírem seus “superfinos apóstolos”.
Nosso motivo, por certo, é importante. Poderíamos indagar-nos se nossas palavras influirão em nosso leitor, em seu conceito sobre a vida, seu trabalho ou suas relações com outros. Esperamos suscitar idéias boas ou más pelo que escrevemos? Apresentaremos um imoral como nosso herói e tentaremos desculpar seu erro, ou apoiaremos, talvez, uma teoria que contradiga a Bíblia?
Não importa quão bem escrito possa ser um livro, se visa promover uma idéia contrária à boa moral, então não agradará ao verdadeiro cristão. Com efeito, tal livro pode ser perigoso, pois, se escrito bastante bem, poderá seduzir pessoas a entreter maus pensamentos, quase da mesma forma que algo muito bem escrito pode encorajar bons pensamentos.
Por fim, tendo dito tudo que há para se dizer, o resto fica, como disse certa vez Terentianus Maurus, ‘nas mãos de nosso leitor’. Como ilustração final, consideremos o caso daquele famoso rei que apreciava o valor da palavra proferida a seu tempo. Ele escreveu um dos mais lindos poemas de amor de todos os tempos em que suplicava a uma jovem do campo que se tornasse dele. Disse a esta jovem sulamita que ela era como a aurora, linda como a lua, brilhante como o sol. Mas, aonde o levaram todas as suas excelentes palavras? A lugar nenhum!
A jovem amava seu pastor e nada que Salomão pudesse dizer poderia mudar isso. No que tangia à sulamita, ele desperdiçava sua excelente linguagem e seu tempo. Assim, é a palavra certa, não só no tempo certo, mas dita à pessoa certa, que conta!

Pro. 25:11

2 comentários:

  1. Este artigo é da Despertai 8/3/1974. Pensei em apenas citá-la. Mas vale a pena ler o artigo inteiro e alguns não tem essa revista disponivel.
    Espero que apreciem o artigo.

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  2. Linda matéria, precisamos sempre nos lembrar que nossas palavras podem causar um grande efeito nos outros.
    Que saibamos sempre escolher o melhor modo de escrever e apresentar nossas idéias.
    Uma ótima semana

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